Professora de 35 anos de escola pública da Serra ganha prêmio nacional de Ciências

Camila Reis contou com o apoio de 70 alunos da Escola Estadual Rômulo Castello para faturar o IV Prêmio Educação em Ciências 2022, com o trabalho sobre os efeitos do estresse salino e da seca no crescimento e germinação da alface em áreas irrigadas do Nordeste

Alunos observam o preparo de ensaio sobre germinação de sementes, na etapa desenvolvida em laboratório da Ufes: estudo de professora da Serra faturou o IV Prêmio Educação em Ciências 2022 | Foto: Divulgação

A professora de Biologia Camila Reis dos Santos, de 35 anos, da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Rômulo Castello, de Carapina Grande, na Serra, região metropolitana do Espírito Santo, conseguiu um feito inédito: é a vencedora do IV Prêmio Educação em Ciências 2022, desbancando profissionais de todo o País.

O prêmio é concedido pela Federação de Sociedades de Biologia Experimental (Fesbe), em parceria com o Instituto Questão de Ciências (IQC). A proposta é estimular a criatividade no ensino de ciências, formando pensadores críticos e questionadores.

Para vencer, Camila contou com o apoio de 70 alunos de duas turmas do 3º ano do ensino médio da escola em que trabalha. Eles estudaram os efeitos do estresse salino e da seca no crescimento e germinação da alface em áreas irrigadas do Nordeste. O assunto chegou à sala de aula por meio de uma manchete de jornal levada pela professora, que estava finalizando o doutorado em Biologia Ambiental na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e resolveu vincular a tese com o estudo de Botânica no ensino médio.

“Mas será que todas as espécies de plantas são intolerantes à salinização e à seca? Como melhorar e até mesmo solucionar o problema?”, perguntou ela aos alunos.

O passo seguinte foi conseguir levar os estudantes, que são carentes em sua maioria, à universidade, já que a grande parte deles só estava interessada em terminar o ensino médio para trabalhar. Ela relata com entusiasmo que, ao final, os alunos se viram parte daquele contexto, apesar de muitos nunca terem colocado os pés no campus.

“Lá, eles conheceram onde eu trabalhava e falaram com outros pesquisadores. Viram os nossos percalços, quando tínhamos de repetir experimentos. Aprenderam técnicas e etapas de germinação de sementes. Avaliamos as estratégias de recuperação de sementes submetidas a uma substância chamada nitroprussiato de sódio, que apresentou melhora da tolerância de plantas à seca e à salinidade, quando expostas ao agente. Acabou sendo uma experiência maravilhosa!”, relembrou.

A professora conta, também, que a ida à universidade foi importante porque mudou a ideia dos alunos de que o cientista é um nerd, que usa óculos, e mostrou que é uma pessoa comum. Ela revela que muitos ficaram deslumbrados com o fato de usar um jaleco pela primeira vez e se sentiram pesquisadores.

“Após as visitas, ocorridas em 2019, voltamos para a escola e fizemos uma réplica do meu experimento de doutorado no laboratório da unidade de ensino. Eles acompanharam a germinação com a alface e sementes de feijão, simulando uma situação de estresse salino. Ensinei como calcular índices de germinação. Os alunos produziram gráficos e fizeram um relatório. Isso possibilitou que ampliassem os conhecimentos científicos. Passaram a interpretar artigos sobre o tema. Foi um verdadeiro alfabetismo científico”, orgulha-se.

Camila disse que, numa roda de conversa, os estudantes fizeram relatos positivos e perceberam que o uso da substância permitiu um crescimento melhor. E indagaram: “Será que isso não poderia ser usado no Nordeste?”

“Entramos na questão da relevância social das Ciências. Associaram a importância daquela pesquisa para resolver um problema real. O trabalho virou um artigo científico, que fez parte da minha tese de doutorado. Embora a tese seja científica, de Biologia Vegetal, eu incluí um capítulo de educação, contando a minha experiência de extensão, algo inédito, que foi levar o conhecimento científico para a escola pública. O experimento foi publicado na Revista Científica Brasileira de Ciências e Matemática”, comemorou.

 PRÊMIO

A professora disse ter ficado surpresa com o resultado do prêmio. Ela concorreu contra representantes de São Paulo, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Mato Grosso. No final, houve a seleção de 10 finalistas e, por último, três.

Camila desbancou os também professores Luísa Rieth Uber (3º lugar) e Felipe Sérvulo Maciel Costa (2º lugar). O anúncio dos vencedores ocorreu no último dia 9/08, por videoconferência. A entrega do prêmio ainda não ocorreu, mas será em dinheiro. O 1º lugar (R$ 2 mil), o 2º lugar (R$ 1 mil) e o 3º lugar (R$ 500).

 Luísa, da Escola Municipal Agostinho Franceschi, em Araruama (RJ), apresentou o projeto “Aula Noturna”, em que os alunos fizeram modelos do sistema solar, construíram foguetes com garrafas de PET e fizeram observações da Lua cheia com lunetas caseiras com canos de PVC.

 Já Felipe, da Escola Cidadã Integral Técnica Estadual Melquíades Vilar, em Taperoá (PB), envolveu os alunos do 2º ano do ensino médio com a astronomia, usando o aplicativo Stellarium, um simulador do céu e o projeto de busca de asteroides da Nasa, descobrindo três deles, nunca catalogados.

“O prêmio é mais dos alunos do que meu. É muito gratificante receber porque consegui mostrar o quanto eles são incríveis e capazes. Também consegui inseri-los no mundo da universidade. Mostrei que eles podem ocupar esse espaço, que também é deles. Mas atribuo essa vitória ao Senhor. O amor é o dom supremo de Deus. Não existe educação sem o amor. A ciência é importante, faz parte do cotidiano, mas não é uma verdade absoluta. Ela é uma forma de leitura do mundo. O conhecimento foi dado por Deus a nós. É uma dádiva de Deus”, concluiu Camila.

O presidente da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa, deputado estadual Bruno Lamas, que é da Serra, comemorou o resultado da professora. Segundo ele, trabalhos como este e o esforço dos mestres e alunos servem de inspiração para a sociedade capixaba e destacam o bom trabalho que vem sendo feito pelos profissionais e pela Secretaria de Estado da Educação nas escolas públicas do Espírito Santo.

O próprio Bruno lembrou a necessidade de dar visibilidade a trabalhos como o da professora Camila. Para isso, ele lembra que aprovou a lei que cria a Tribuna Acadêmica. Agora, jovens universitários vão poder apresentar seus trabalhos na Assembleia Legislativa. Boas ideias poderão virar políticas públicas.

Por Gleberson Nascimento


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